sexta-feira, julho 01, 2005

Pequena Fábula Pós Moderna (ou o porquê de andar a fazer as malas da cidade da minha juventude)

Coimbra é uma pequena cidade à margem do Mondego plantada.

Coimbra é uma cidade engraçada para um gajo viver nela os seus anos académicos.

Coimbra tem uma Universidade e uma Hospital espantosos.

Coimbra vai ter dois dos melhores centros comerciais deste país (e olhem que há muitos!).

Coimbra tem 0 Indústria.

Coimbra tem 0 futuro.

Ao contrário da sua rival Aveiro, em plena expansão, Coimbra é hoje uma cidade envelhecida, decadentosa e, sobretudo, de olhos fechados para o presente e de costas voltadas para o futuro.

A causa, a consubstanciação de tal situação é a inexistência de qualquer actividade industrial na cidade e seu envolvente. E qualquer região necessita de um sector secundário e de um sector terciário activos e presentes (o sector primário já é outra história, longa de mais para nos perdermos nela...) para o seu crescimento e desenvolvimento.

Coimbra chegou a este ponto de ruptura graças aos interesses imobiliários (rentáveis no curto prazo) a ditarem as regras por estes lados. Um conhecido meu contou-me que uma grande empresa de construção da zona adoptava a seguinte técnica na sua actividade imobiliária (ou deveria designar-se "incendiária"?):
1 - Aquisição de pequenas e médias empresas, com um património em termos de edifícios e terrenos mais ou menos vasto
2 - Substituição dos quadros superiores da empresa adquirida
3 - Degradação da actividade económica da mesma, sendo um dos métodos mais utilizados a eliminação dos fornecedores da mesma através do simples não pagamento das matérias primas
4 - Com todo e qualquer fornecedor a recusar-se encetar relações comerciais com a empresa, esta entra em processo de falência
5 - A empresa adquirente encontra-se então em posição legal de pôr e dispor dos terrenos e edifícios da empresa falida (o interesse primordial aquando da sua aquisição)
6 - Loteamento dos terrenos e sua venda, quer sob a forma de terreno urbano para construção, quer sob a forma de prédios de habitação, quer sob a forma de Outlets & Centros Comerciais

Esta técnica mortífera, e possíveis derivações, praticamente limpou o parco tecido industrial que ainda existia no pós 25 de Abril na região. Os grandes benificiados foram as empresas imobiliárias e, pois claro, umas quantas eminências pardas na Cãmara Municipal que permitiram o licenciamento de construção selvagem.

Os prejudicados? Todos em geral a médio prazo, mas em particular uma população activa que é formada na Universidade e Institutos Politécnicos e se vê obrigada a partir para outras paragens em busca de melhor futuro.

Quem fica?
Médicos e Professores. Senhores Doutores portanto ("Senhor Doutor" não deveria ser só o gajo com um Doutoramento?). Terciário puro que se auto-alimenta, envelhece e vai continuar metido no casulo conferido pelo grau académico (foda-se, esta cidade é tão apegada aos títulos que um dia destes vou-me ver obrigado a tratar o padeiro por "Sôr Doutor").

Assim parto.

Parto com saudade.

Mas sem arrependimento.